Receba o nosso boletim informativo!

Receber notícias

Não, obrigado

wheel

Artigo19 out 20265 min de leitura

O transporte faz parte da consulta: o degrau que falta ao SNS

Transporte não urgente de doentes: o degrau que falta ao SNS entre a maca e o autocarro. O que muda para hospitais e ULS.

São nove e vinte de uma terça-feira. A consulta de ortopedia, marcada há meses, é às dez. A paciente está pronta desde as oito, de casaco vestido e com a carta do hospital dobrada na mala, como quem vai a uma audiência em tribunal. Mas mora num terceiro andar sem elevador e o filho só sai do trabalho ao fim da tarde. Não precisa de uma ambulância, nem de um médico, nem de um ministro. Precisa de um braço. E é isso, precisamente, que o país não tem para lhe dar.

Porque importa para a cadeia

O sistema público, verdade se diga, nunca quis saber como é que o doente chega à consulta. Só repara nele quando falta, e aí, com a eficiência que reserva para estas ocasiões, castiga-o. No SNS, o transporte não urgente gratuito exige, regra geral, aquilo a que o Estado chama com pudor insuficiência económica (um rendimento médio mensal até 805,70 euros, em 2026) e uma condição clínica que a justifique, como uma incapacidade igual ou superior a 60% ou dificuldade de locomoção. Há exceções para quem está em tratamento prolongado, diálise, oncologia, transplante, e o acompanhante só é pago em casos contados. Quem precisa apenas de alguém que lhe dê o braço na escada e no átrio fica, quase sempre, à porta. Ou melhor: fica em casa.

Entretanto, a despesa com este transporte passou de 97,1 para 212,4 milhões de euros entre 2014 e 2024. O relatório do Orçamento do Estado para 2026 lá anuncia seis medidas para poupar 12 milhões em 2026, 34,8 em 2027 e 46 em 2028, qualquer coisa como 22% do que se gastou em 2024. Corta-se, portanto, como sempre se cortou em Portugal: a régua e esquadro, num gabinete onde ninguém sobe escadas. Do outro lado do balcão, perderam-se por falta quase 900 mil primeiras consultas hospitalares entre 2019 e 2023, 190 mil só em 2023. Um estudo em três USF do Centro concluiu que as dificuldades de transporte explicavam 8,9% das faltas e o esquecimento 27,6%. Se aquela proporção valesse para as primeiras consultas hospitalares (e é uma extrapolação, não um dado, que não quero ser acusado de inventar números), estaríamos a falar de perto de 17 mil faltas num ano (190 000 × 0,089).

E agora a parte kafkiana. Pelas regras da CTH, ainda aplicáveis às consultas, quem falta e não justifica em sete dias seguidos vê o pedido encerrado e volta à estaca zero: nova referenciação, nova espera, nova carta dobrada na mala. A escada, essa, nunca é notificada. Ninguém lhe abre um processo.

A pergunta é simples, e é curioso que ninguém a faça. Se o problema começa em casa e só se regista no hospital, a quem compete garantir que o doente chega à consulta: a quem paga o transporte ou a quem marca a hora? A mim parece-me evidente. A quem marca a hora.

A escada da deslocação

Para decidir com algum critério, coisa rara entre nós, convém separar os doentes em três degraus, conforme o que lhes falta para chegar:

  • Há os da maca, que precisam de ambulância ou viatura dedicada; é o único degrau que o SNS cobre, e quase sempre com prova de insuficiência económica. 
  • Há os do braço, que conseguem ir de carro ou de táxi, mas não sozinhos, e para esses não existe resposta pública nacional. Uma ou outra câmara, uma ou outra junta, tem táxi social ou transporte solidário, mas raramente com alguém que acompanhe o doente até ao consultório. 
  • Lembrete. Consegue ir sozinho, mas esquece-se. A mensagem no telemóvel resolve parte do problema.

Os alemães, que gostamos de imaginar frios e burocráticos, resolveram o degrau do meio com uma regra de puro bom senso. Segundo o G-BA, uma viagem de táxi para tratamento em ambulatório considera-se aprovada logo que é prescrita a quem tem grau de dependência (Pflegegrad) 3 com mobilidade permanentemente limitada, graus 4 ou 5, ou os marcadores de deficiência aG, Bl ou H. O critério é a funcionalidade, não o rendimento: pergunta-se se a pessoa consegue andar, não quanto ganha. E o hospital pode prescrever o transporte no próprio plano de alta. A lei alemã também não nomeia o acompanhante, é certo, mas as caixas de seguro de doença pagam-no quando o médico o declara necessário na prescrição. Lá, a regra admite que entre a maca e o autocarro existe gente. Cá, ainda não demos por isso.

Dir-se-á, e não sem razão, que com o orçamento em corte alargar a cobertura é uma imprudência. Sucede que o degrau do braço não é uma ambulância mais barata. É uma pergunta feita a tempo. E perguntar, que eu saiba, ainda não consta das medidas de contenção do Orçamento.

O que muda para cada actor

  • Aos conselhos de administração dos hospitais e das ULS, convinha lembrar que a taxa de faltas às primeiras consultas também mede o acesso físico, e que lida sem degraus esconde a causa.
  • À coordenação dos cuidados primários, que conhece a escada de cada doente melhor do que ninguém, caberia escrevê-la na referenciação, que é onde deve ficar.
  • Aos que pagam, que cortem, se assim entendem, mas saibam que cortar sem criar o degrau intermédio arrisca pagar duas vezes: na consulta vazia e no circuito que recomeça.
  • E ao Regulador, que enquanto não houver faltas publicadas por motivo ninguém saberá que parte das 190 mil é, afinal, uma escada.

Não é preciso nenhuma reforma, nenhum grupo de trabalho, nenhum plano estratégico a dez anos. Há duas coisas que se podem fazer já este mês. A primeira é acrescentar à marcação uma pergunta, se o doente vem sozinho ou precisa de quem o traga, e registar a resposta. A segunda é telefonar aos faltosos do último trimestre e anotar em que degrau falharam. Com a pergunta feita no dia da marcação, às nove e vinte daquela terça-feira já haveria alguém a tocar à campainha.

Como se monta este degrau, e quem o paga, é a parte que este texto não conta.


Fontes: DL 113/2011 e Portaria 142-B/2012; Relatório OE2026; Público/DE-SNS (13/5/2024); Carvalhais et al., RPMGF 2024; Portaria 95/2013; G-BA, Krankentransport-Richtlinie, § 8.

Mais perspetivas

We use cookies to give you the best possible experience, and while some are essential, others help us understand how you use the site, so we can improve it. Click “Accept all cookies” to proceed as specified, “Decline optional cookies” to accept only essential cookies, or click “Manage my preferences” to choose what cookie types you will accept. Cookie Policy.

© CW1 Inc, All rights reserved
CW1 Group