O contrato que nos venderam está a desfazer-se e a próxima vítima é possivelmente o SNS.
Se nasceu nos anos 80 ou 90, cresceu muito provavelmente a ouvir a mesma ladainha que eu: "Estuda, arranja um emprego, paga os teus impostos e o Estado/SNS/Segurança social trata de ti." Soa familiar? Pois claro. Quem cresceu nos anos 80 e 90 foi educado nesta fé, quase como num catecismo. E nós lá fomos e cumprimos. Estudámos, licenciámo-nos, arranjámos emprego, demos o corpo ao manifesto… e agora achamos que o sistema vai estar lá para cuidar de nós na velhice.
Depois olhamos para a geração seguinte. Também estudaram e também se licenciaram, mas o emprego é mais difícil de encontrar (até porque nós, os licenciados de ontem, ainda ocupamos os lugares que eles querem) e a renda come-lhes o ordenado. Muitos continuam a viver com os pais.
E há uma ironia que as duas gerações partilham. Entre a rotina do trabalho e a falta de tempo, sempre com a velha promessa de que "quem trabalha mais é mais recompensado", sobra pouco tempo para aquilo a que pudicamente se chama "criar as gerações futuras". Junte-se o medo de uma sociedade com tantas guerras, o custo de vida e tudo o resto, e temos um problema geracional servido de bandeja.
A União Europeia tem hoje mais pessoas entre os 60 e os 79 anos do que pessoas com menos de 20. E é aqui que entra o problema de desenho do sistema. Quando os nossos avós montaram a segurança social, assentaram tudo numa fórmula simples:
Contribuições de quem trabalha hoje = pensões de hoje + impostos que financiam sistemas como o SNS
Esta fórmula só funciona enquanto houver trabalhadores suficientes a descontar por cada reformado. Quando os custos sobem, a receita clássica é conhecida de todos: congelam-se os aumentos das pensões e empurra-se a idade da reforma para mais tarde. Ao mesmo tempo, cria-se emprego para haver mais gente a descontar e pede-se aos fabricantes de dispositivos médicos que façam um desconto aos prestadores.
2020 e tudo o que o vento trouxe em vez de levou
Pandemia, emigrações, IA, inflação e guerra. Cinco fatores que deixaram gente sem emprego, fizeram subir o custo de vida e as rendas, puseram a IA a devorar recursos e espalharam guerras que encareceram ainda mais tudo o resto. Tudo isto só veio pôr a nu o problema de fundo: temos um sistema mal desenhado de raiz.
Não vou transformar este artigo num panfleto político, por isso fiquemo-nos pela saúde. Se não controlarmos os custos da saúde, o desfecho é previsível. Uma população envelhecida precisa de mais cuidados e de mais camas de hospital. Os médicos frustram-se porque o salário não está à altura do trabalho. Cada vez menos profissionais ficam no sistema. E, simplesmente, não temos capacidade para tanto.
Os sinais estão à vista de todos. Por toda a Europa, a Geração Z queixa-se de que não consegue ter casa. O passo seguinte será queixar-se de que não consegue aceder a cuidados de saúde decentes. E depois disso virão as revoltas contra o status quo, porque esta geração já percebeu que não terá as regalias dos boomers de hoje.
Está na hora de pôr mãos à obra
A solução não passa pela política. Passa por nós, empresários e gente de negócio, que tomamos as decisões com impacto direto nos consumidores. Temos de pôr os governos e os políticos de lado por um bocado e pensar na nossa responsabilidade social.
Sei que a Geração Z anda zangada. E, sinceramente, não me apetece cobrar-lhes 80 euros por uma consulta quando estão doentes e apertar-lhes ainda mais a carteira.
Sigam o dinheiro
Comecemos por onde vai parar o dinheiro. Em 2023, a UE gastou 1720 mil milhões de euros em saúde, cerca de 3835 euros por pessoa. Mais de metade (52,7%) foi para tratar e reabilitar quem já estava doente. A prevenção ficou com 3,7%. (Eurostat, dados extraídos em outubro de 2025)
Depois, vejamos o que põe as pessoas doentes. A Comissão Europeia estima que as doenças crónicas absorvem 70 a 80% de todos os custos com saúde. Muitas delas, como as doenças cardiovasculares e a diabetes tipo 2, podiam ser evitadas com um estilo de vida mais saudável. Ou seja, gastamos quase tudo no problema e quase nada na prevenção. (Comissão Europeia)
Isto não é um problema do sistema, é um problema de modelo de negócio. O grosso do setor ganha dinheiro quando estamos doentes. Quase ninguém ganha dinheiro quando nos mantemos saudáveis e, enquanto assim for, ninguém vai investir a sério na nossa saúde.
O meu conselho aos colegas de setor
- Cobrem o que é justo, não o que o mercado aguenta. A Geração Z está zangada e eu percebo porquê. Não quero cobrar 80 euros por uma consulta a alguém de 25 anos que está doente e espremer-lhe ainda mais a carteira. Uma teleconsulta para um caso simples não precisa de custar isso. O preço tem de servir o acesso, não o medo.
- Ganhem quando as pessoas se mantêm saudáveis. Virem o modelo ao contrário e recompensem quem aparece às consultas de rotina e mantém as análises dentro dos valores de referência. Deem-lhes preços mais baixos por fazerem a sua parte. Se a nossa receita depender da saúde das pessoas, vamos lutar com unhas e dentes por ela.
- Cheguem antes da doença. Uma análise ao sangue anual custa pouco. O que importa é que alguém a leia de facto e diga «isto está a ir pelo mau caminho» enquanto ainda há tempo. Tratar um enfarte ou dez anos de diabetes custa uma fortuna.
- Alguém tem de ser dono do caso. Hoje é o doente que carrega a própria história de prestador em prestador. Repetem-se exames e perdem-se seguimentos. Cada falha custa dinheiro e, pior ainda, custa tempo. Os cuidados coordenados não são um luxo. São os mais baratos de todos.
- Paguem a quem faz o trabalho. Médicos e enfermeiros vão-se embora porque o sistema não lhes dá o devido valor. Usem a tecnologia para lhes tirar a burocracia de cima, não para os trocar por máquinas. Um médico que passa o tempo com doentes, e não com papelada, vale mais para todos nós.
- Empregadores, isto também é convosco. A Comissão estima que o absentismo por doença custa à UE cerca de 2,5% do PIB por ano. Uma equipa saudável não é uma regalia de RH. É uma rubrica do balanço. Invistam antes de as pessoas adoecerem, não depois de meterem baixa. (Comissão Europeia)
Nada disto exige uma lei nova. Exige que deixemos de ser gananciosos e que construamos negócios que lucrem com a saúde, e não com a doença.
A melhor vida que consigo imaginar é chegar aos 80 quase sem ter estado doente e morrer tranquilamente durante o sono. É esse o equilíbrio que devemos ter como meta. O resto é conversa.








