Ainda antes da dissolução da Assembleia da República, o Governo deixou no ar a intenção de voltar a colocar Parcerias Público-Privadas em cinco Unidades Locais de Saúde: Braga, Loures, Amadora-Sintra, Vila Franca de Xira e Almada. Quase todos estes hospitais já viveram um regime de PPP, por isso o modelo não lhes é estranho, mas por agora, contudo, a decisão fica entregue a quem formar o próximo governo, e até lá tudo permanece em suspenso.
O argumento a favor das parcerias é conhecido e foi repetido na altura pelo então ministro da Presidência:
hospitais do Estado que prometem entregar melhores cuidados a um custo mais baixo para o contribuinte.
A própria Administração Central do Sistema de Saúde lembra que a saúde foi, em Portugal, o primeiro setor a recorrer a este modelo, trazendo parceiros privados para a concessão, o financiamento e a exploração de unidades do Serviço Nacional de Saúde como forma de partilhar o risco e ensaiar novas formas de gestão. Foi nesse registo que as PPP nasceram entre nós, e é nesse registo que regressam agora ao debate.
Mas reduzir a discussão a custos e a modelos de gestão é ficar pela superfície. O que torna estas parcerias interessantes para as ULS não é tanto o parceiro privado em si, é a autonomia que ele costuma trazer. Uma unidade com margem para decidir internamente, sem depender a cada passo de autorizações centrais, ganha qualquer coisa mais rara do que rapidez: ganha espaço para repensar a forma como trabalha. E é esse espaço, muito mais do que um equipamento novo ou um software mais moderno, que determina se os cuidados melhoram de facto ou se apenas mudam de dono.
É precisamente aí que o sistema falha de forma silenciosa. O percurso do doente, aquilo que ele vive desde que adoece até voltar a casa, quase nunca foi desenhado de propósito. Um utente passa do médico de família para o especialista, e depois para outro, e a cada etapa recomeça do zero: novo processo, a mesma história contada outra vez, mais uma espera. Não falta software a este percurso. Falta-lhe desenho.
Comprar tecnologia para um processo mal pensado é digitalizar o atrito, não resolvê-lo.
Acrescentar uma ferramenta a um circuito partido só o faz tropeçar mais depressa nos mesmos sítios. O trabalho que conta é anterior e mais difícil: olhar o percurso inteiro, perceber onde se perde o doente e redesenhá-lo antes de o equipar. É um projeto de pensamento e de método, não uma fatura de compra.
Quando se redesenha a sério, as próprias regras mudam de natureza:
- O registo clínico segue o doente e não a clínica, de modo que ninguém tem de repetir a sua história a cada porta nova.
- O acesso conta-se em dias e não em meses.
- Cada etapa encaixa na anterior, da consulta à segunda opinião, da renovação de uma receita a uma baixa médica, em vez de exigir um novo princípio.
- A tecnologia entra no fim, para servir o desenho e não para o disfarçar.
É por aqui que se percebe o que é, afinal, o Malm by CW1. Não uma aplicação para encaixar à força num sistema antigo, mas um percurso pensado de ponta a ponta, já a funcionar na Suécia, na Alemanha e em Portugal. O que lhe dá valor não é o ecrã, é o desenho que está por baixo dele, e é essa experiência de redesenho que falta a uma ULS no momento exato em que ganha autonomia para mudar.
Daí que o regresso das PPP a cinco unidades seja, no fundo, menos uma questão de saber quem gere e mais uma questão de saber o que se faz com a liberdade que o modelo concede. Há quem acredite que, bem executado, conduz a um SNS mais ágil e acessível, e há quem continue a desconfiar de que esta seja a melhor resposta para o serviço público. O debate está longe de fechado. Mas, de um lado e do outro, fica um aviso difícil de contornar: autonomia sem um plano de redesenho serve apenas para repetir, mais depressa, os velhos hábitos.
E é exatamente aí que está a oportunidade. Cada unidade que recebe latitude para decidir abre uma janela rara para repensar o percurso antes de o equipar. Quem chega a essa janela com um desenho já testado, e não com um catálogo de tecnologia debaixo do braço, é quem consegue transformar uma mudança de gestão numa mudança real para quem é tratado. Porque qualquer estratégia para o SNS só se sustenta de uma maneira: primeiro o desenho, depois as ferramentas.
Malm by CW1 — redesenhar o percurso do doente, da Suécia a Portugal.

