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Por uma saúde melhor. Parte 1: Os Alicerces

Os sistemas públicos de saúde europeus não estão a ficar sem médicos. Estão a ficar sem coordenação. As listas de espera, a quebra de confiança e as urgências sobrelotadas são sintomas da mesma lacuna: ninguém é responsável pelo caso do doente do início ao fim. Os cuidados contínuos, prestados por equipas de especialistas dedicadas, são a camada operacional que tem faltado aos sistemas públicos.

Pedro Stark
By Pedro Stark
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Pedro Stark

Pedro Stark

Group Managing Partner

Os cuidados de saúde públicos universais continuam a ser um dos pontos fortes da Europa

Os cuidados de saúde públicos europeus oferecem o que poucas outras regiões conseguem: acesso universal aliado a resultados clínicos consistentemente elevados. Portugal, Alemanha, Suécia e os seus pares situam-se no topo ou perto do topo das medições da OCDE em matéria de esperança de vida, sobrevivência ao cancro e resultados maternos. Instituições como o Karolinska, o Charité e o Hospital de Santa Maria continuam entre as mais capazes do mundo a nível clínico. A pressão sobre o sistema não provém da qualidade clínica, mas da procura demográfica.

A proporção de residentes na UE com 65 anos ou mais subiu de 16 % em 2000 para 21 % em 2023, e prevê-se que atinja quase 30 % até 2050. OCDE, Health at a Glance: Europe 2024

A geração dos baby boomers encontra-se agora a entrar no período de vida em que as multimorbilidaes e as doenças crónicas se multiplicam – um fator estrutural de aumento da procura que os sistemas públicos não foram originalmente concebidos para absorver nesta escala. A Comissão Europeia já reconheceu a lacuna e está a financiar ativamente a resposta, orientando o programa de trabalho de saúde do Horizonte Europa 2026–2027, que dedica um destino completo aos cuidados integrados:

"Garantir o acesso equitativo a cuidados de saúde inovadores, sustentáveis e de elevada qualidade," com convites explicitamente orientados para melhorar o acesso dos cidadãos através de abordagens integradas ou personalizadas. Comissão Europeia, HaDEA

A direção é clara: a próxima geração de cuidados de saúde públicos não será construída com base na adição de mais capacidade, mas na ligação e redesenho da capacidade já existente.

A procura mudou mais depressa do que a coordenação

Os sistemas públicos não estão a ficar sem médicos – estão a ficar sem os médicos certos, nos lugares certos, focados nos doentes certos. Os baby boomers exigem uma utilização intensiva, a multimorbilidade e as necessidades de cuidados crónicos tornaram-se a norma e não a exceção, e os sistemas públicos foram dimensionados para um padrão de procura diferente.

Vinte países da UE reportaram escassez de médicos em 2022–2023, com uma estimativa de 1,2 milhões de médicos, enfermeiros e parteiras em falta em toda a UE. OCDE, Health at a Glance: Europe 2024

Do lado da oferta, o número total é enganador: a densidade médica subiu de 3,1 por 1.000 habitantes em 2002 para 4,2 em 2022, mas a composição evoluiu na direção errada. Apenas um em cada cinco médicos da UE é hoje médico de família e dois terços são especialistas. Os cuidados primários, enquanto ponto de entrada do sistema, estão a esbater-se estruturalmente, e a força de trabalho também está a envelhecer: mais de um terço dos médicos da UE e um quarto dos enfermeiros têm 55 anos ou mais.

O problema mais profundo é que os médicos estão cada vez menos disponíveis para os doentes do setor público. As restrições orçamentais e as decisões políticas de contenção de custos criaram uma válvula de saída do público para o privado. O padrão difere consoante o país, mas a direção é a mesma:

Portugal: A utilização exclusiva do SNS caiu de 90 % para 82 % entre 2022 e 2025. Os salários no setor público situam-se em média entre 2.500 € e 3.500 € mensais, face a 4.000 €+ na prática privada e 6.000 €+ no estrangeiro.

Alemanha: Os doentes privados recebem rotineiramente consultas mais cedo porque os médicos recebem reembolsos mais elevados dos seguros privados. Os mesmos médicos servem efetivamente duas filas.

Suécia: Uma quota crescente de médicos e enfermeiros são contratados temporários colocados por empresas de trabalho temporário, o que corrói a continuidade institucional nos prestadores públicos.

Fontes: The Portugal News (2026); Grokipedia (2026); MyHealthcareBroker (2025); AFP via MedicalXpress

A oferta existe – o que está a erodir é o acesso público fiável à mesma.

A lista de espera é o sintoma. A jornada do doente não gerida é a causa.

Tratar as listas de espera como um problema de capacidade produz respostas previsíveis: contratar mais, gastar mais, construir mais. Os resultados sugerem que o enquadramento está errado.

Alemanha: As esperas por especialistas subiram de 33 para 42 dias entre 2019 e 2024, apesar de um dos sistemas mais bem dotados da Europa.

Suécia: Milhares de milhões de coroas atribuídas desde 2022. As filas mal se mexeram.

Ministério Federal da Saúde (2024); Sweden Herald (2025)

O que está verdadeiramente a falhar é o caminho entre a necessidade de um doente e a sua resolução. Nos casos de multimorbilidade, ninguém é responsável pelo caso do início ao fim, pelo que o doente acaba por coordenar os seus próprios cuidados por defeito. Em Portugal, cerca de metade de todas as visitas à urgência são triadas como não urgentes e poderiam ser geridas nos cuidados primários. Trata-se de um problema de encaminhamento e não de urgência.

Se a capacidade já existe, o que falta?

Os médicos, os hospitais, os orçamentos e os protocolos estão, em grande medida, disponíveis.

Alemanha: densidade de médicos acima da média e uma das redes hospitalares mais bem dotadas da Europa.

Portugal: cerca de 242 hospitais, divididos de forma equitativa entre público e privado.

Suécia: Consistentemente entre os melhores sistemas do mundo em termos de resultados clínicos.

OCDE (2024); dados do setor (2026)

Não são sistemas subdotados – são sistemas subcoordendos. Os cuidados contínuos são a camada operacional que fecha a lacuna. Um doente entra com uma necessidade. Uma equipa dedicada assume o caso, traça o caminho clínico, agenda cada etapa com o especialista certo, documenta o percurso e fecha o ciclo. O prestador público mantém a responsabilidade pelos cuidados. A camada de cuidados contínuos é responsável pelo percurso através do sistema.

Do princípio ao modelo operacional

Os prestadores públicos não conseguem, razoavelmente, construir esta camada por si próprios: os profissionais de saúde estão ao limite da sua capacidade e a reforma administrativa dentro das instituições públicas avança lentamente por conceção. A abordagem viável é a delegação.

Uma equipa de especialistas dedicada funciona como um concierge de cuidados contínuos para o doente: assume o caso, traça o caminho, agenda e documenta cada etapa, e reporta de volta ao sistema público. O programa Malm é um exemplo europeu precoce deste modelo. A autoridade clínica e o controlo orçamental permanecem no prestador público. A equipa de cuidados contínuos acrescenta o encaminhamento, a documentação e o seguimento.

Este modelo só funciona se a métrica mudar com ele. Uma fila pode encurtar enquanto os doentes desistem, abandonam ou migram para alternativas privadas. A unidade de medição honesta é o caso resolvido: aberto, encaminhado, tratado, encerrado – com documentação que acompanha o doente.

Em Portugal, nove em cada dez residentes reportam uma confiança decrescente no SNS, apesar do aumento das despesas públicas. Sondagem de julho de 2025

O princípio dos cuidados de saúde públicos universais não está em risco. O modelo operacional à sua volta precisa de uma camada adicional – e as evidências sobre o aspeto desta camada estão a começar a emergir por toda a Europa.

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